Making of de Produção Audiovisual: “The Showdown Ride”

Posted by , 15/10/2013, ART À LA CARTE, DESTAQUES

The Showdown Ride from Surfari on Vimeo.

Produção audiovisual é um negócio difícil de fazer. Não é que seja complicado pegar uma camera e sair por aí enquadrando as pequenas inspirações do cotidiano. Mas quando se fala em produzir algum vídeo ou filme, as pessoas tendem a pensar que é algo relativamente simples.

Tipo naquela conversa de corredor ou de bar, em que você encontra um velho conhecido que te pergunta o que você anda fazendo da vida. “É tô fazendo filmes, produção audiovisual, saca?”, responde você, sabendo de todo o trabalho que dá fazer essas coisas que as pessoas assistem, muitas vezes sem prestar atenção – e já ciente de que lá vem bomba. “Nossa, que irado! Também tenho um canal no Youtube e volta e meia edito meus clipes de futebol de botão no Movie Maker!”, retruca o seu interlocutor. “Irado!”, é o que você responde com um sorriso.

Vocês batem mais um papo sobre algumas banalidades e cada um segue o seu caminho.

Nota do editor: Essa história do fulano e do velho conhecido não tem nenhuma função sarcástica ou irônica implícita, é apenas a ilustração de uma cena do cotidiano de quem se apresenta profissionalmente como cineasta, filmmaker, produtor, mago das lentes e outras alcunhas típicas de quem trabalha colocando um visor entre o olho e um objeto. 

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Eduardo Linhares, captando imagens no pampa.

Bem, até aí, nenhuma novidade. Essa “banalização” de quem produz materiais audiovisuais nada mais é do que um reflexo da enxurrada de conteúdo grátis que a internet te proporciona incessantemente. É o efeito colateral criado por um meio que dá muito mais oportunidades, audiência, espaço e dinheiro (às vezes esse último não passa de ilusão, mas até rola!) do que qualquer mídia impressa, televisiva ou radiodifusora jamais deu. Então, não sou eu que vou reclamar desse “sistema”, porque se não fosse a internet eu ainda teria que usar um terno, trabalhar em um escritório num bairro nobre e convencer pessoas de que eu sabia mais do que elas sobre suas vidas ou investimentos.

Bueno, após esse lero-lero introdutório/explicativo (que segundo o nosso assessor de marketing digital é excelente para afugentar os leitores quando percebem o tamanho do texto) chego ao ponto onde a história do título realmente começa.

Mês passado, os caras do planejamento de uma revista com a qual colaboramos, nos chamaram para fazer um filme para uma marca de surf. O briefing era o seguinte: a gente tinha que contextualizar em linguagem audiovisual, um test drive de três pranchas da referida marca. That’s it. Como definir isso? Liberdade criativa ou se vira nos 30? No papo, os caras mencionaram a ideia de um duelo, lance meio bang-bang e tal. Ok, entendido. “Tem prazo?”, pergunta o editor, que já estava atolado de trabalho até os tubos. “Cara, tá tranquilo, tem pelo menos dois meses”, responde o planner (outro nome pomposo para designar o cargo). Buenasso, próximos passos: buscar referências visuais, roteirizar o filme, escolher a locação, acompanhar a previsão das ondas (sim, a natureza estava na equação) combinar com os surfistas e pronto. Pronto para apertar o REC pela 1ª vez. Todo resto ainda estava por vir.

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Referências visuais emprestadas do filme “The Good, The Bad, The Ugly”, de Sergio Leone, 1966.

Nunca sonhei em trabalhar numa agência de publicidade, mas realmente me senti em uma quando recebemos uma ligação da galera da revista dizendo: “Caras, o cliente pediu as pranchas de volta semana que vem, vai ter que ser nesse final de semana ou só deus sabe quando pode rolar de novo”, disse a voz pelo telefone. Cacete de agulha! A primeira providência foi olhar a previsão, que apontava um swell de sudoeste de 1.2 metros (na boia), período variando de 7 a 9 e um “ventinho” nordeste de 30 a 40 km/h (para aqueles que seguem lendo até aqui apesar de não entender nada de surf, esses dados apontam que a noitada vai estar boa na cidade).

A bola ficou com a gente, para decidir ir adiante ou cancelar a missão. Isso era quarta-feira, tínhamos que fazer todo o pré-planejamento e ainda torcer pra previsão melhorar. Ligamos para os amigos surfistas para ver se estariam disponíveis. A essa altura não sabíamos se queríamos ouvir ‘Sim’ ou ‘Não’ como resposta. É claro que eles toparam. Carona, alimentação e filmagem: era como outro final de semana qualquer, só que VIP.

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Atuação excelente de um dos estreantes na profissão de ator.

Assim, foi dada a largada. Todo mundo tinha compromisso sexta à noite, então a barca saiu sábado às 6 da manhã de Porto Alegre (até da noitada tivemos que resgatar um dos “atores”) com destino ao litoral catarinense. Chegamos lá e, de cara, a dona da pousada que reservamos tentou nos passar a perna. Bom começo. Perdemos uma hora resolvendo a situação e no fim arranjamos um teto de quebra-galho pra dormir. Resolvido isso, seguimos em frente.

Sei que minha tentativa de descrever o quão forte estava o vento vai falhar, mas (o filme mostra isso) acredite: parecia que SC tinha entrado na rota de um furacão. Decidimos gravar as cenas de composição, numa evidente tentativa de esquecer que a principal função do filme era mostrar a performance de três pranchas sobre as ondas. Adelante.

Tínhamos roterizado as cenas de acordo com o briefing, inspirado num estilo velho oeste, que era bem típico do lugar. Mas como o start tinha sido dado em cima da hora, as locações foram escolhidas in loco e sem muito espaço pra erro, afinal, tínhamos no máximo umas 16 horas de luz do sol.

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Abrigo temporário do “nordestão” uivante.

Escolhemos um bar na beira da estrada, cujo dono ficou entusiasmadíssimo com as câmeras e tentava insistentemente demonstrar seus dotes musicais. Depois partimos para as dunas. Que capítulo à parte da nossa existência como filmmakers (ou a sua denominação preferida). A quantidade de areia que o vento levava era fora do comum. É difícil de acreditar, eu sei, ainda mais frente aos floreios narrativos que já me vali para escrever esse texto. Mas eu veraneio há 18 anos no litoral norte do Rio Grande do Sul, um lugar sem nenhuma barreira natural para o vento, e eu poderia contar nos dedos da mão esquerda do ex-presidente Lula quantas vezes havia presenciado um evento daqueles.

Abraçamos o diabo e colocamos o equipamento na linha de tiro, mesmo sob fogo cruzado. Gravamos os takes por lá e fomos para a parte das ondas. Vou te poupar de detalhes pois já passei de 1000 palavras. Ir pra praia com 1.2 metros (na boia), na obrigação de gravar, é muito otimismo. Encontramos ondas numa condição entre ‘só vou porque tô com o long seco’ e ‘se eu cair, vou só no fim de tarde’. Os amigos surfistas, no entanto, fizeram seu trabalho muito bem e extraíram o suco da inconstante ondulação.

Voltamos para casa com areia até no orifício auricular e cansados pra caramba. Tinha sido um dia intenso. Tomamos uma cerveja cada um, pois não estava muito confortável conversar na mesa de jantar, afinal, o casebre não tinha sofá.

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Apesar das ondas inconstantes, os “atores-surfistas” desempenharam muito bem.

O dia seguinte seria novamente frenético, pois tínhamos que gravar mais surf, as cenas do terceiro “ator” (que só pôde chegar no domingo ao meio dia e tinha que estar de volta a Porto Alegre até as 20:00) e o duelo, também conhecido como clímax do filme. Após intermináveis sequências de pega-as-câmeras-desamarra-as-pranchas-surfa-caminha-faz-cara-de-mau-guarda-as-câmeras-amarra-as-pranchas, concluímos as cenas do roteiro (cuja única cópia física tinha voado numa rajada mais forte na cena das dunas. É sério.).

Então, tiramos a barriga da miséria, arrumamos as coisas e viajamos 4 horas de volta para casa com um sorriso de orelha a orelha. Só pra concluir, não há nada melhor do que viver fazendo o que se gosta de fazer, seja tomando areia na cara e postando vídeos na internet ou suando dentro de um terno. Cada um é feliz com as suas loucuras.

Se você chegou até aqui, muito obrigado!

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*Ahh, peraí 1: A galera do planejamento que são o Rafael, o Kiko e a Helene da Revista VOID e a referida marca de surf é a RUSTY. Poupamos esse pessoal lá em cima pelo bem da narrativa, mas queríamos deixar um muito obrigado pela confiança no trabalho do Surfari! Valeu galera!

*Ahh, peraí 2: Se você leu esse texto até o fim e mora na capital da República Rio-Grandense e arredores, chega lá no Complex amanhã (quinta-feira, 10/10/13) às 19:30 pra dar uma olhada no produto final, as 21:00 a gente dá o play.

Texto: Lucas Zuch

 

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